Há pouco tempo, em um lugar tão, mas tão próximo. Em um reino chamado Aparência do Norte. Um conhecido local muito famoso por ser um lugar de amor e de paz. Terra onde o mais importante era manter a aparente paz mundial. Morava uma linda princesa chamada Maldade. Maldade sempre foi uma menina muito introspectiva. Porque se criou muito sozinha. Já que, seu pai, o rei Egoísta, pensava o tempo todo apenas em si próprio. O rei Egoísta olhava tanto para si que nem percebeu a maldade crescer, mesmo estando o tempo todo muito próximo dela. A mãe da Maldade era a rainha Bondade Presumida. Para a Rainha todas as pessoas eram boas e o mundo era um lugar de amor e de paz. Foi a própria Bondade, inclusive, que acostumou o povo a chamar a Terra de Aparência, de um lugar de amor e paz. Bondade era incapaz de pensar em algo ruim, via apenas virtudes, paz e amor em tudo e em todos, o tempo todo. A rainha Bondade era tão amorosa e bondosa que nunca percebeu, se quer, que seu marido, o rei Egoísta, pensava apenas em si mesmo. Já para a Maldade, sendo filha do Egoísta, a única coisa que importava mais do que ela própria era a manutenção da linda Aparência. Maldade sempre colocou em prática tudo o que aprendeu com seu pai, e por isso, se tornou uma princesa amada por todos os seus súditos. Já que no fundo todos pensavam que ela era uma excelente pessoa. Pelo menos era o que parecia e,  aparência, no norte, era tudo o que importava. Maldade dava comida aos pobres, comparecia aos eventos de Natal da igreja e até mandava comida da sua mesa para o orfanato do reino. As sobras, é claro, mas isso não importa. Sempre que podia, a Maldade ajudava os outros. Sempre colocando Aparência em primeiro lugar, digo, segundo, primeiro era ela, afinal, ela merecia. A futura Rainha Maldade parecia boa e isso já era mais do que suficiente para todos na terra de Aparência do Norte.

Com quinze anos de idade a vida de Maldade mudou para sempre. Seu pai, o rei Egoísta, tirou a própria vida. Porque não podia mais ver no espelho a fisionomia do homem velho e enrugado em que estava se tornando. Ele era lindo demais para acompanhar a si próprio definhando, digo, envelhecendo daquele jeito. Pensava que sua filha não merecia ter um pai tão feio e sua esposa seria mais feliz sem um homem enrugado ao seu lado. Já a terra de Aparência seria mais bela sem a presença do rei feioso em que ele estava se tornando. A melhor opção que encontrou foi partir enquanto ainda estava lindo, como sempre. Esperando, obviamente, que todos se lembrassem de tudo o que ele fez para manter a sua linda Aparência. Como a mãe da Maldade, a rainha bondade presumida estava abalada demais após a morte do seu maravilhoso, justo e honesto marido. Já que era assim que a Bondade via o Egoísta. A Maldade precisou assumir o trono. Logo no seu primeiro ato de governo, a rainha Maldade aprendeu uma lição que levaria para toda a vida. Enquanto a Maldade crescia, vivenciou um episódio em que seu pai, o então rei Egoísta, alterou o curso de um rio para regar as piscinas de água natural do palácio. No entanto, ignorou que um terço do lindo Reino de Aparência usava a água daquele rio. O que gerou muita revolta. Afinal, haviam ficado sem água para nada. Ninguém falava abertamente por medo da Represália. Represália era a melhor amiga do Egoísta e conselheira em assuntos especiais do trono. Além disso, o rei Egoísta tinha fama de ser cruel com quem o contrariasse ou o criticasse. Porém, todos sabiam que parte da população estava muito insatisfeita com o ocorrido.  Na época, a menina Maldade ficou irada com os rumores. Ninguém tinha o direito de falar nada sobre seu pai. Afinal, o Egoísta sempre pareceu perfeito aos olhos da Maldade. Para honrar a memória do seu, aparentemente querido papai, em seu primeiro dia no trono, a Maldade ordenou reabrir a represa e colocar o rio em seu curso natural. A festa foi tão grande que uma prima muito distante da Maldade, a Alegria, saiu dançando pelo reino todo para celebrar. Porém, enquanto todos comemoravam, a rainha ordenou ao general Sorrateiro que alterasse o curso de outro rio para regar as flores e encher as piscinas do palácio. Porém, desta vez, a Maldade disse ao povo que era preciso mais água para a lavoura. Que isso era vital para o alimento e para a saúde de todos, e que todos deveriam se sacrificar pelo bem do Reino de Aparência, da mesma maneira que ela havia se sacrificado ao colocar, novamente, o rio em seu curso natural. A Alegria estava tão à vontade que ninguém questionou. Todos tinham certeza de que tinham uma rainha que se preocupava com o bem-estar do seu povo. Correu um pequeno boato de que a Maldade havia mentido, mas foi ignorado por todos. A rainha Maldade parecia ser uma boa pessoa, e boas pessoas não mentem assim para o povo. Esse episódio mudou a maneira como a maldade via a vida e o reino. Naquele dia a Maldade percebeu que não tinha problema em se preocupar apenas com ela mesma, como fez seu pai. Desde que fizesse parecer que foi por uma boa causa. Afinal, no Reino de Aparência do Norte, parecer era sempre o mais importante.

Ao lado do trono da rainha maldade ficavam os conselheiros reais. Do seu lado esquerdo, estava o acento do senhor Omissão, e ao seu lado direito, se assentava o Medo. Conselheiros famosos e admirados por todos os grandes reinos conhecidos. Segundo corria a fama, o Medo e a Omissão eram fundamentais para que o governo da Maldade proliferasse, no Reino de Aparência. Sob os conselhos quase inaudíveis da Omissão e do Medo, o Reino de Maldade crescia. Já a rainha, Bondade Presumida, não se cansava de elogiar sua filha por ter herdado a beleza, a inteligência e a doce personalidade do seu pai, o rei Egoísta.

Porém, como o Tempo é o melhor amigo da Verdade. O Tempo fez com que a Verdade viesse visitar o Reino de Aparência. Aos poucos a Verdade foi visitando casa a casa e fazendo com que cada morador percebesse que tudo o que a Maldade fazia era de curta duração e tinha uma intenção egoísta, por trás. O que era óbvio, já que a Maldade era filha do egoísmo em pessoa. Com a ajuda do Tempo, a Verdade fez todos perceberem que no Norte era tudo Aparência. Quando a rainha Maldade ouviu sobre o que estava acontecendo, foi direto pedir a opinião do conselho real. Afinal, eles eram muito amigos do seu, aparentemente bondoso pai, e sempre foram fiéis ao Reino de Aparência. A opinião do conselho foi unânime: não fazer nada. O senhor Omissão não queria se envolver em conflitos e o senhor Medo tinha muito receio de que tivesse uma guerra por causa da Verdade. Segundo o concelho real, um embate com a Verdade não favorecia a manutenção do Reino da Maldade. Era melhor fazer nada. A Bondade ficou extremamente chateada com a ingratidão daquele povo. Como eles tinham coragem de questionar os atos da Maldade, sendo ela, aparentemente, tão boa para com todos. Bondade Presumida ainda acrescentou o quanto sua filha parecia bondosa por permitir que todos os moradores do Reino Aparência estivessem vivos. A Bondade não conseguia ver nenhum problema no reinado da Maldade. Para ela tudo sempre estava bom do jeito que estava e tudo se ajustaria sozinho, se fosse necessária alguma mudança.

No entanto, contrariando a opinião de todos, a Maldade resolveu agir. Chamou todos os empregados do palácio e mandou que todos fossem para suas casas, com uma única condição. Eles deveriam espalhar por todo o Reino de Aparência que a Verdade não traria benefício algum ao povo. A Verdade traria a guerra de volta ao Reino de Aparência. Com a guerra, viriam a Miséria e a Morte, suas companheiras fiéis, sobre os lombos de um conflito armado. Além disso, a Verdade era passageira, não morava no Reino de Aparência. Quando a Verdade não estivesse mais na região, a Maldade iria cobrar de todos. No fundo o povo temia que a Maldade carregasse consigo a crueldade que herdou de um Egoísta. Por receio de perder o emprego e seus benefícios, por trabalharem para o governo de Aparência, todos fizeram exatamente como a Maldade ordenou. Rapidamente a Verdade deixou de ser recebida e as pessoas passaram a ignorá-la. Onde quer que a Verdade entrasse ou fosse mencionada, o Silêncio ordenava que todos ficassem quietos. Todos temiam que a guerra aparecesse por causa da Verdade. As pessoas preferiam continuar vivendo com algo semelhante a paz, no Reino de Aparência, do que ouvir o que a Verdade tinha a dizer. Sem pesar o alto preço que estavam pagando para ter no reino uma aparência de paz.

Dizem que até os dias de hoje no Reino de Aparência, a Maldade reina com a mão de ferro do Egoísta e atos que imitam a Bondade. O senhor Omissão prefere não se envolver em nada. O senhor Medo fica travado, prefere não agir. O povo escolheu fingir que nada está acontecendo para viver na companhia da falsa paz. A Verdade está proibida de ser dita, para não trazer a guerra ao Reino de Aparência e a Bondade continua sem conseguir ver nenhum problema no governo da Maldade. Com isso, a Maldade segue firme na convicção que herdou do Egoísta e o Tempo já não serve mais para nada. Uma vez que todos escolheram fingir que está tudo bem, no Reino de Aparência do Norte.

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