O Leão, a Águia e o Pombo

Descendo por uma grande avenida de uma das principais cidades da Europa, avistei um leão sobre uma águia, segurando a grande ave pelas patas. Ao longe, parecia-me uma disputa territorial. Era uma praça grande e bela, com lindas árvores e outros animais. A julgar pela imponência da ave, é possível que o leão, territorialista, tenha percebido algum risco para o seu reinado no local e iniciado o ataque. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi a calma com que um pombo defecava sobre a cabeça do leão enquanto este segurava a águia com a pata em seu pescoço. Será que o pombo entendia o que estava acontecendo? Será que ele percebeu o risco que corria ao estar naquele lugar e naquele momento? Ou será que, para a pequena ave, suas necessidades momentâneas eram mais importantes do que qualquer perigo que pudesse enfrentar? Talvez a ave pensasse que sua bela penugem branca e seu aspecto inofensivo a protegeriam do ataque de qualquer um dos predadores em questão. Talvez ela acreditasse que o governo da praça não era um problema seu e que, para ela, qualquer um dos animais que vencesse a disputa não faria diferença. Será que o pombo estava certo? Será que o governo da Praça não fazia diferença?

Tanto leões quanto águias são carnívoros e de grande porte. Os leões medem cerca de dois metros de comprimento, pesam, em média, 270 quilos e podem alcançar grande velocidade, próxima de impressionantes 80 km/h. Em um espaço pequeno, como uma praça, seria muito difícil escapar de um possível ataque. Alguém diria: “Mas pelo menos eles não voam.” No entanto, não precisam voar. Podem ficar horas à espreita, esperando o momento certo para o ataque. E as águias? As águias são excelentes caçadoras, aves de rapina — e a palavra “rapina” significa “raptar”. Elas possuem bicos afiados, garras fortes e audição e visão extremamente aguçadas. Podem mergulhar em alta velocidade e desferir um bote fatal em sua presa sem que ela sequer perceba de onde veio o ataque.

Dito isso, fica claro que o pombo não teria a menor chance de sobreviver se qualquer um dos dois predadores decidisse atacá-lo. Então, de onde vem a calma, e a coragem, do pombo? Por que ele defeca na cabeça do leão em meio à batalha sem demonstrar nenhum tipo de temor por sua vida? Será o pombo um animal tão corajoso assim? Quem são os pombos?

Os pombos são animais que medem aproximadamente 30 centímetros de comprimento e se alimentam preferencialmente de sementes. São animais domésticos e costumam viver em ambientes urbanos. Seus principais predadores são exatamente as aves de rapina e os felinos, famílias respectivas das águias e dos leões, estes últimos que procuram seus ninhos e comem seus ovos e filhotes.

Pois, de onde vem tanta coragem desse pombo para defecar tranquilamente na cabeça de um de seus maiores predadores em meio a uma disputa territorial, com outro de seus maiores predadores? É difícil dar uma resposta concreta sem conhecer o pombo pessoalmente; melhor seria perguntar a ele. No entanto, é possível fazer algumas considerações. O pombo, que é um animal monogâmico e de poucos filhotes, pensa apenas em seu ninho e em sua família, como se a disputa pelo controle de sua região não importasse para ele. O pombo vive sua vida como se apenas a sobrevivência imediata fosse importante, ignorando o fato de que sua vida não está sob seu controle, assim como a segurança de seu lar e de sua família.

A qualquer momento, um dos predadores que controlam sua região pode decidir algo sobre ele ou sua família sem pedir sua opinião ou consentimento. Pode mudar o tipo de alimento que eles podem consumir, o tipo de conteúdo que seus filhotes podem aprender ou até mesmo o tipo de tratamento médico que podem receber. Em troca, prometem deixá-los viver. Mas está tudo bem! O pombo tem uma casa, uma família e o direito de estar vivo. Para ele, isso parece ser o suficiente: uma casa que ele não governa, uma família sobre a qual não pode decidir o futuro ou a educação, e uma vida que só pode ser vivida segundo os termos do predador no comando. Mas, para o pombo, isso não importa. O que importa é defecar em praça pública e fingir que nada está acontecendo, assim, ele consegue se sentir um pouco mais seguro. E, para o predador, um pombo bom é um pombo calado e submisso, ainda que esteja fazendo merda. Agindo assim, a pequena ave ganhará o direito de viver e defecar à vontade, mesmo que não controle sua casa ou sua própria vida. O silêncio é preço da paz.

Dessa forma, ambos convivem em comum acordo, e o pombo vai vivendo um dia de cada vez. Até que o predador no comando se envolva em um conflito territorial ainda maior e destrua toda a praça. Mas sem problemas! Se continuar fazendo nada, tudo vai ficar bem. O pombo gosta de pensar positivo sempre. E se tudo der errado no final, pelo menos ele fez merda a vida toda e se convenceu de que foi feliz e livre. A praça não é problema dele.

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